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A editoria-chefe do JN: quem decide o que entra no ar

De Cid Moreira a Cristiana Sousa Cruz, a história de quem comanda a linha editorial do telejornal mais importante do país.

Uma função invisível que define o telejornal

Quando o Jornal Nacional entra no ar, às 20h, o telespectador vê dois âncoras, um cenário de vidro e uma sucessão de reportagens. O que não aparece é a instância que decide o que entra e o que fica de fora de cada edição. Essa é a tarefa do editor-chefe — o cargo mais estratégico e menos conhecido da televisão brasileira.

Desde 1º de setembro de 1969, quando o JN estreou como o primeiro programa gerado no Rio de Janeiro em rede nacional, o telejornal construiu uma hierarquia editorial própria. Nos primeiros anos, a bancada ditava o ritmo: Cid Moreira e Sérgio Chapelin liam as notícias com a dicção de locutores de rádio, e a credibilidade vinha da voz, não da autoria.

A era dos âncora-editores

O modelo mudou quando os apresentadores passaram a comandar também a edição. Em 1º de abril de 1996, Cid Moreira e Chapelin deixaram a bancada para William Bonner e Lílian Witte Fibe. Pouco depois, com a formação definitiva ao lado de Fátima Bernardes (1998), Bonner acumulou a função de editor-chefe — e o cargo ganhou rosto.

A partir dali, o JN deixou de ser apenas um telejornal lido e passou a ser um produto com linha editorial assinada. Foi essa fase que consolidou furos que marcaram época, como a entrevista com PC Farias ainda foragido, nos anos 1990, e a apuração da violência policial na Favela Naval, em Diadema.

Os princípios editoriais do Grupo Globo, lidos por Bonner e Fátima no ar em 6 de agosto de 2011, formalizaram aquilo que a redação já praticava: um compromisso público com normas de conduta jornalística.

Redação integrada e a virada do comando

Em 19 de junho de 2017, o JN saiu do mezanino que ocupava havia mais de dezessete anos e passou a ser apresentado de dentro de uma nova newsroom de 1.370 m², construída para integrar o telejornal, o g1 e a GloboNews. A proximidade física virou também integração editorial.

Em novembro de 2025, com a saída de Bonner após quase três décadas, a editoria-chefe passou para Cristiana Sousa Cruz — e a bancada, para César Tralli e Renata Vasconcellos. Era o fim de um ciclo de 29 anos e o começo de uma fase em que o comando editorial não coincide mais com a figura que aparece na tela.

Leia mais: A bancada do Jornal Nacional e o valor das âncoras

O que a tradição realmente protege

Quem decide o que entra no ar não aparece no Ibope, mas é quem garante que o JN continue sendo reconhecido como o telejornal de referência do país. A disputa atual sobre o tom da cobertura — mais contido ou mais incisivo — é, no fundo, uma disputa sobre quem dá a última palavra sobre a identidade do programa.

É por isso que a avaliação interna que veio à tona nesta semana interessa tanto: ela não discute apenas o desempenho de um âncora, mas o modelo editorial que o telejornal carrega desde 1969. Uma função que nasceu invisível hoje decide o futuro visível do horário nobre.

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Por Portal Bonner — redação independente.