A era dos debates na TV: do pool de 1989 ao palco de 2026
Da primeira eleição direta em 1989, quando a TV dividiu o palco entre presidenciáveis, ao debate da Globo em 1º de outubro de 2026: como o embate virou ritual.
O palco que a TV inventou para a política
Em 1º de outubro de 2026, a TV Globo vai reservar mais de três horas do horário nobre para colocar frente a frente os candidatos à Presidência. É o último debate antes do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. Para entender como se chegou a esse ritual, é preciso voltar quase quatro décadas.
O debate presidencial na TV brasileira nasceu junto com a primeira eleição direta após a redemocratização. Em 1989, os presidenciáveis finalmente tinham um palco comum — e a televisão descobriu que podia organizá-lo.
O pool de 1989 e o nascimento de uma tradição
Naquele ano, a fórmula era diferente da atual. Em vez de uma emissora sozinha, as principais redes se uniram em um pool — um consórcio de veículos que dividia a produção e a transmissão. Era a resposta possível a um país que ainda engatinhava na cobertura eleitoral.
O formato criou uma marca que persiste até hoje: o debate como evento coletivo, produzido por várias emissoras em nome de um interesse comum. Foi ali que o eleitor brasileiro aprendeu a assistir — e a cobrar — o confronto direto entre candidatos.
Os anos 1990 e a consolidação do modelo
Na década seguinte, os debates ganharam regularidade e as emissoras passaram a disputá-los individualmente. A produção deixou de ser consórcio e virou marca da casa: cada rede queria ser a dona do encontro decisivo.
Foi um período de profissionalização. Os programas ganharam regras fixas de tempo, sorteio de ordem, blocos definidos e mediação treinada. O improviso deu lugar ao regulamento — e o regulamento, por sua vez, se tornou objeto de negociação política.
A lei que sustenta o formato
Tudo isso tem base legal. A participação em debates é regida pelo artigo 46 da Lei das Eleições (Lei 9.504/1997), que obriga as emissoras a convidar candidatos de partidos com pelo menos cinco parlamentares no Congresso Nacional.
Para os demais, o convite é facultativo. Não é uma escolha arbitrária: é um critério objetivo, mas que ganha peso enorme quando o país vive uma pulverização de candidaturas — cenário que define a eleição de 2026.
Duas eleições, dois ritmos
No primeiro turno, todos os candidatos elegíveis podem ser chamados, em um só encontro ou em grupos de no mínimo três. No segundo turno, a regra muda por completo: participam apenas os dois mais votados, independentemente do tamanho do partido.
É essa assimetria que torna o debate de primeiro turno tão delicado. Quanto mais candidatos, mais difícil garantir que os favoritos se enfrentem — e menor a chance de um confronto direto entre os que lideram as pesquisas.
O que mudou em 2026
O ciclo de 2026 levou o modelo ao limite. O primeiro debate, em 23 de agosto, reuniu apenas três candidatos: Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Os dois favoritos não estavam lá.
Depois, o consórcio formado por SBT, CNN Brasil, RedeTV! e outros veículos desistiu do encontro previsto para 14 de setembro. Em seguida, a TV Record cancelou o debate de 27 de setembro, alegando que sem os principais nomes o formato não cumpriria seu papel.
O palco encolhe na reta final
Restou à Globo o último encontro antes do pleito. A emissora convidou quatro candidatos — os que cumprem o critério legal. A decisão de não estender o convite a outros nomes gerou protesto público, mas obedeceu à régua do artigo 46.
O que se vê, portanto, não é o fim do debate — é o seu estreitamento. De consórcio amplo em 1989, o ritual chegou a um palco reduzido, transmitido por uma única emissora, com presença ainda indefinida dos dois principais concorrentes.
Um ritual que aprendeu a sobreviver
Ao longo de quase quarenta anos, o debate presidencial brasileiro já foi consórcio, já foi marca própria, já foi obrigação legal e já foi alvo de boicote. Cada crise o obrigou a se reinventar — sem nunca desaparecer.
É essa a força da tradição. Mesmo esvaziado de protagonistas, o encontro de 1º de outubro continua sendo o ponto em que a TV aberta exerce sua função mais antiga e mais política: criar o espaço em que a disputa pelo poder precisa ser falada em voz alta.
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Por Portal Bonner — redação independente.