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A Globo perdeu o púlpito, mas manteve o sermão

Sem debate, a emissora exibiu onze minutos de autoexplicação. A tese é simples: o palco se esvaziou e a TV ficou falando sozinha.

O palco que ninguém quis ocupar

Quando o debate presidencial da Globo foi cancelado, a pergunta que ficou no ar não era sobre regras ou decisões judiciais. Era mais simples e mais incômoda: por que ninguém quis ocupar o palco?

A resposta ajuda a entender o momento da TV brasileira. O problema não é de alcance — a Globo continua líder e o Jornal Nacional segue o telejornal mais visto do país. O problema é de centralidade. A TV deixou de ser o lugar obrigatório do confronto político.

A tese: a arena se esvaziou

Durante décadas, o debate na TV aberta funcionou como um ritual obrigatório da democracia. Quem fugia, perdia — ou pelo menos pagava um preço simbólico alto. A ausência era lida como medo, fragilidade, falta de preparo.

Em 2026, essa lógica se invertou. Lula trocou o debate da Globo por uma entrevista ao Flow Podcast, no mesmo horário. Flávio Bolsonaro desistiu em cima da hora. Nenhum dos favoritos precisou do estúdio da emissora para falar com seus eleitores.

O eixo mudou: a disputa já não é entre candidatos, mas entre candidatos e a emissora. E, nessa disputa, quem lidera tem menos a perder ausentando-se do que comparecendo.

Evidências de um encolhimento

O ciclo eleitoral inteiro conta essa história. O primeiro debate, em 23 de agosto, teve apenas três candidatos e nenhum dos favoritos. O consórcio SBT/CNN/RedeTV! desistiu do encontro de 14 de setembro. A Record cancelou o seu, alegando que Lula e Flávio somavam mais de 70% das intenções de voto.

Quando a Globo bancou o confronto de 1º de outubro — reservando mais de três horas de horário nobre e cortando a novela das nove —, o gesto já carregava um quê de resistência. A emissora tentou segurar uma tradição que os candidatos já não consideravam indispensável.

O contraponto: alcance não é relevância

É preciso cuidado com conclusões apressadas. A TV aberta não perdeu alcance. Em setembro, a cobertura do STF pela Globo atingiu 50,7 milhões de pessoas, e a emissora consolidou recordes de audiência no jornalismo ao vivo.

O que mudou foi a assimetria de interesse. A emissora precisa do debate: ele justifica o horário nobre, atrai anunciantes e sustenta a narrativa de que a TV é o palco da democracia. O favorito que lidera não precisa: para ele, o confronto é risco puro — expõe erro, amplifica o adversário.

Além disso, o podcast oferece o que a TV não dá: tempo, controle e ausência de contraditório. É exposição sem risco.

Quem paga a conta

No fim, quem perde é o eleitor. O debate é o único formato em que os candidatos respondem às mesmas perguntas, ao vivo, sem edição e sem algoritmo. Quando ele desaparece, sobra a comparação indireta — feita por cortes, clipes e narrativas escolhidas a dedo.

Se a lógica de 2026 se consolidar, o problema não é a TV sair menor. É a democracia ter menos lugares onde as diferenças se encaram.

Ainda há um contrapeso: o segundo turno tende a forçar o confronto. Com apenas dois candidatos e sem esconderijo, a ausência fica muito mais difícil de sustentar. Resta saber se o formato sobrevive até lá — e se o público ainda estará disposto a assistir.

Leia mais: Debate cancelado derruba audiência do Jornal Nacional

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Por Portal Bonner — redação independente.