A Record e o debate que o segundo turno perdeu
A Record cancelou o debate com Lula e Flávio marcado para 11 de outubro. É o segundo turno que mais cancela confrontos desde o pool de 1989.
O debate que a Record desmarcou e a tradição que ele revela
Na sexta-feira, 9 de outubro, a Record anunciou o cancelamento do debate presidencial entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) que estava marcado para o domingo, 11 de outubro. Em nota, a emissora atribuiu a decisão à "incompatibilidade de agendas" dos dois candidatos — sem detalhar quais compromissos impediram o encontro nem indicar nova data.
O cancelamento poderia parecer um detalhe de logística. Mas ele diz muito sobre o lugar que o debate ocupa hoje na TV brasileira — e sobre como um formato que nasceu como ritual obrigatório da democracia virou uma peça de calendário que pode ser desmarcada a qualquer momento.
De onde vem o formato que estamos vendo encolher
Para entender o peso do que foi cancelado, é preciso voltar a 1989. Na primeira eleição direta para presidente depois do regime militar, as emissoras brasileiras criaram o pool de debates: um arranjo inédito em que várias empresas dividiam a organização de um confronto único, com tempos iguais, perguntas cruzadas e mediação.
Aquele modelo — Fernando Collor contra Luiz Inácio Lula da Silva, na reta final — virou o marco fundador do gênero no país. O debate deixou de ser um programa e passou a ser um evento cívico.
A lei que transformou a emissora em porteira
Em 1997, a Lei 9.504, no seu artigo 46, consolidou o formato: qualquer emissora poderia organizar debate desde que convidasse candidatos de partidos com pelo menos cinco parlamentares no Congresso. A regra institucionalizou as redes de TV como porteiras oficiais de um ritual que, teoricamente, não poderia deixar nenhum concorrente de fora.
Nas décadas seguintes, a Globo assumiu o papel de árbitro informal do calendário, realizando o "último e mais decisivo" confronto em quase todos os ciclos. A Record, a Band e o SBT se revezaram em datas anteriores. O debate virou sinônimo de eleição.
1969 a 2026: a bancada como personagem do mesmo enredo
Há uma linha curiosa ligando o cancelamento de hoje à história do telejornalismo. Foi no Jornal Nacional, em 1º de abril de 1996, que Cid Moreira passou o posto a William Bonner — e o âncora deixou de ser apenas uma voz para se tornar um autor do que ia ao ar.
O mesmo telejornal que narrava a apuração e mediava os confrontos acumulou, ao longo de décadas, uma autoridade que nenhum outro formato conseguiu replicar. Os debates, em paralelo, viraram a versão ao vivo dessa autoridade: perguntas iguais, sem edição, sem algoritmo.
O que o cancela-cancela de 2026 ensina
Em 2026, porém, o ritual chegou ao segundo turno já encolhido. O primeiro turno teve apenas um debate na TV aberta, na Band, em 23 de agosto — e sem Lula, sem Flávio e sem Zema, os favoritos. O consórcio de veículos desistiu em setembro. A Record cancelou um encontro em 27 de setembro. A Globo desmarcou o debate de 1º de outubro menos de uma hora antes do ar, depois de decisões judiciais.
Agora, o primeiro confronto direto entre os dois favoritos do segundo turno — que seria justamente o da Record, neste domingo — também não vai acontecer.
"A realização desses debates dependerá da confirmação de participação dos candidatos e das condições estabelecidas pelas emissoras", resumiu o comunicado da emissora.
O que sobra no calendário
Restam três datas. Um encontro conjunto de SBT, RedeTV! e CNN Brasil está previsto para 15 de outubro. A Band confirmou seu confronto para 18 de outubro, às 20h, com transmissão em TV, rádio, YouTube e Bandplay, além de um pool com Gazeta, Cultura, Jovem Pan e o Estadão. E a Globo planeja o seu para 23 de outubro, dois dias antes da votação final, marcada para 25 de outubro.
A tradição do debate brasileiro nunca foi linear. Ela foi construída menos pela regra e mais pela vontade das emissoras de manter o palco em pé — e pela disposição dos candidatos de subir nele. Nos anos 1990, isso era quase automático. Em 2026, cada data é uma negociação.
Leia mais: A tradição do calendário de debates e a virada do 2º turno
O que o cancelamento da Record escancara é que o debate deixou de ser o momento em que o país se reúne diante da mesma pergunta. Passou a ser mais um item numa agenda disputada — e agendas, como se sabe, podem ser remarcadas.
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Por Portal Bonner — redação independente.