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A repórter que pergunta: a tradição do radiojornalismo ao JN

Do gravador pesado do Palácio do Planalto à bancada do Jornal Nacional: como o jornalismo de perguntar se tornou a marca do telejornalismo brasileiro.

O gravador como instrumento de poder

Antes de a pergunta virar um clique em comentários de rede social, ela era um objeto de metal pendurado no ombro. O gravador de fita era pesado, caro e visível de longe — e a sua simples presença numa sala mudava o comportamento de quem estava sendo observado.

Era assim que a repórter Sônia Carneiro, a Soninha, trabalhava desde 1971 no Palácio do Planalto e no Congresso Nacional, pela Rádio Jornal do Brasil. Muitos dos poderosos, ao vê-la chegar carregando o equipamento, simplesmente fugiam. O relato é do jornalista Ricardo Noblat, que a definiu como "a mais intrépida repórter política do radiojornalismo brasileiro".

Do rádio à televisão: a pergunta como herança

A televisão brasileira nasceu herdando o método do rádio. O Jornal Nacional estreou em 1969 com uma proposta que parecia simples e nunca foi: transformar o noticiário em pergunta direta, feita em nome de um público que não estava ali.

Quando o telejornalismo se consolidou, na década de 1970, o repórter de rua passou a ocupar o lugar que o radiojornalista já ocupava. A pergunta deixou de ser um ruído e virou método: quem, o quê, quando, onde, como e por quê — os mesmos 5W2H que qualquer manual de redação ainda ensina hoje.

O repórter como fiscal do poder

Nas décadas de 1980 e 1990, essa tradição atravessou a redemocratização. Perguntar deixou de ser risco de prisão e passou a ser obrigação profissional. Repórteres de rua viraram personagens das coberturas de tragédia, de Brasília e de campanha — sempre com a mesma ferramenta na mão.

A televisão entendeu que a pergunta bem feita é o único jeito de o telespectador entrar numa sala fechada onde ele jamais estaria. É esse acesso que dá sentido ao telejornalismo.

O que o rádio ensinou e a TV esqueceu

A grande diferença entre o radiojornalismo de plantão e parte do jornalismo televisivo atual está no tempo da escuta. O repórter de rádio apurava no corredor, ao vivo, sem edição posterior. A resposta inconveniente era transmitida do mesmo jeito, com o ruído ambiente e a hesitação de quem responde.

A TV, por sua vez, aprendeu a editar a pergunta — e às vezes a editá-la até que ela perca a mordida. Essa é a tensão que voltou ao centro do debate quando morreu, neste domingo (20), em Brasília, aos 74 anos, a repórter que fazia questão de perguntar.

Não existe pergunta inconveniente. Não existe página virada. Existe resposta inconveniente, mas esse não é um problema nosso.

A frase, repetida por colegas em homenagens póstumas, é quase um manifesto. Resume uma geração inteira de jornalistas que aprendeu nas redações de rádio e televisão dos anos 1970 o que hoje se discute em manuais de compliance editorial.

Um legado que não cabe na fita

A trajetória de Soninha acompanhou, lado a lado, os mesmos momentos que o telejornalismo brasileiro cobriu: o fim do regime militar, o avanço da redemocratização, o impeachment de Fernando Collor e a estabilização econômica. Ela estava nos corredores enquanto a TV mostrava o país na tela.

É esse fio que liga o gravador de 1971 à bancada do Jornal Nacional em 2026. Nenhuma tecnologia — câmera, celular, transmissão ao vivo — substituiu o essencial: a disposição de olhar para quem manda e fazer a pergunta que ninguém fez.

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Por Portal Bonner — redação independente.