Cobrir o impeachment: como o JN enfrentou a crise de 1992
Em 1992, o Jornal Nacional cobriu ao vivo o impeachment de Fernando Collor, o primeiro presidente a sofrer o processo no Brasil. A cobertura marcou a maioridade do telejornalismo brasileiro.
Em 29 de dezembro de 1992, Fernando Collor de Mello tornou-se o primeiro presidente do Brasil a sofrer impeachment. Para o Jornal Nacional, a cobertura da crise política que começou com as denúncias de Pedro Collor em maio daquele ano foi um divisor de águas — o momento em que o telejornalismo brasileiro mostrou a que veio.
O estopim: a entrevista que abalou o governo
Em maio de 1992, o irmão do presidente, Pedro Collor, concedeu uma entrevista bombástica à Veja. A partir dali, o JN passou a dedicar espaços cada vez maiores ao desenrolar do escândalo. Não era mais possível ignorar: o esquema de tráfico de influência comandado por Paulo César Farias, o PC Farias, estava exposto.
O JN, sob o comando de Armando Nogueira na direção de jornalismo, adotou uma linha de cobertura factual e progressiva. Cada dia trazia uma nova revelação — e o telejornal noticiava com o tom sóbrio que o momento exigia.
As manifestações e os caras-pintadas
Em agosto de 1992, milhões de brasileiros foram às ruas com os rostos pintados de verde e amarelo. O JN mostrou as manifestações de norte a sul, com imagens que se tornaram icônicas. Estudantes da USP, artistas como Caetano Veloso e Chico Buarque, e até apresentadores da própria Globo apareciam nas reportagens.
Curiosamente, a cobertura quase passou por um momento de autocensura. Havia resistência interna na Globo em dar destaque às manifestações — mas a pressão dos repórteres e da realidade venceu. O JN mostrou o movimento popular com a dimensão que ele tinha.
O dia da votação
No dia 29 de setembro de 1992, a Câmara dos Deputados votou a abertura do processo de impeachment. O JN dedicou a edição inteira ao tema. Cid Moreira e Sérgio Chapelin apresentaram as imagens históricas dos deputados declarando seus votos — um espetáculo democrático que o Brasil nunca havia visto pela televisão.
Foram 441 votos a favor e apenas 38 contra. O presidente estava afastado. O Brasil acompanhou tudo pela TV — e o JN foi a principal fonte de informação de milhões de brasileiros.
Legado da cobertura
A crise de 1992 ensinou ao Jornal Nacional que cobertura política ao vivo não era só possível — era necessária. A partir dali, o telejornal investiu em mais jornalistas políticos, mais tempo de debate e mais transparência editorial.
Bonner, que ainda não era âncora, acompanhou tudo da redação como editor. A experiência da cobertura do impeachment moldou a forma como ele enxergaria o papel do JN em crises futuras — das eleições de 2014 à pandemia de 2020.
Em 2026, com o JN sob comando de César Tralli e Renata Vasconcellos, a herança de 1992 segue viva: a convicção de que o telejornal tem o dever de cobrir crises políticas com profundidade, sem sensacionalismo e sem omissão.
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Por Portal Bonner — redação independente.