Diretas Já e a rua que a TV aprendeu a filmar
Da Praça da Sé de 1984 às manifestações de 2026: como a TV brasileira aprendeu, a duras penas, a cobrir as multidões nas ruas.
Uma multidão que a TV demorou a reconhecer
Quando milhares de pessoas ocupam uma avenida, a televisão precisa decidir, em segundos, o que aquilo é. Manifestação ou protesto? Comício ou festa? Notícia ou nota? Essa escolha, que parece técnica, é uma das mais políticas que uma redação faz — e a história da TV brasileira mostra que ela nem sempre foi fácil.
Na campanha das Diretas Já, em 1984, o país foi às ruas em 32 comícios pedindo eleição direta para presidente. A TV Globo, então, tinha uma orientação interna conhecida: os primeiros atos deveriam receber cobertura apenas nos telejornais locais, para evitar efeitos políticos de alcance nacional. Quando o comício da Praça da Sé, em São Paulo, reuniu uma multidão histórica, o Jornal Nacional o exibiu no contexto do aniversário da cidade — um enquadramento que a própria emissora, anos depois, reconheceu como problemático.
A rua como teste de credibilidade
O episódio da Sé virou uma espécie de cicatriz na memória do telejornalismo. Ele ensinou que a imagem de uma multidão é um fato em si: o ângulo aberto que mostra a extensão dos quarteirões ocupados, o tempo dedicado ao vivo, a escolha de chamar o ato de "manifestação" ou de "protesto" — tudo isso comunica mais do que qualquer narração.
Nas três décadas seguintes, a TV brasileira experimentou ciclos de aproximação e afastamento. Nos protestos de 2013, as emissoras foram acusadas de demorar a sair do estúdio e chegar às ruas. Em 2015 e 2016, a cobertura de grandes atos nas avenidas virou rotina e palco de disputa política. Cada vez mais, o público aprendeu a comparar o que estava vendo na TV com o que via no celular de quem estava lá.
A pergunta deixou de ser apenas "a TV cobriu?" e passou a ser "a TV cobriu como?".
Da câmera única ao celular de todos
Por décadas, o repórter de rua foi o único olho capaz de levar a multidão ao horário nobre. Ele decidia o enquadramento, o corte e a edição. Hoje, milhares de celulares filmam o mesmo ato, ao vivo, de ângulos que a emissora não escolheu mostrar. Isso mudou a relação de poder: a TV ainda tem o maior alcance, mas perdeu a exclusividade de definir o que a rua foi.
É nesse contexto que a cobertura de manifestações voltou ao centro do debate em outubro de 2026. A lição de 1984 continua atual: quando a TV se afasta da rua, alguém está filmando — e a comparação chega em segundos.
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Por Portal Bonner — redação independente.