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Do rádio ao Flow: como o debate eleitoral saiu da TV

Da bancada do rádio ao mesacast, a entrevista eleitoral migrou para o digital — e a TV deixou de ser o único palco do confronto político.

O palco que mudou de endereço

Durante décadas, o confronto eleitoral na televisão brasileira teve hora marcada, cenário fixo e mediador. Em 1989, o pool de emissoras inaugurou o debate presidencial de alcance nacional na primeira eleição direta após o regime militar. De lá para cá, o estúdio virou o templo cívico onde os candidatos mediam forças diante de milhões de espectadores.

Em 2026, esse templo ganhou uma porta lateral. A poucos dias da votação, o presidente Lula (PT) cancelou a ida ao debate da TV Globo e marcou uma entrevista no Flow Podcast para o mesmo horário. O gesto não é improviso: é a repetição de uma estratégia que já havia dado resultado em 2022.

Do rádio à bancada: a tradição do confronto

A entrevista política como evento de mídia nasceu no rádio, nos anos 1950 e 1960, quando os presidenciáveis se submetiam a sabatinas ao vivo e o microfone já era capaz de projetar a voz para todo o país.

Com a chegada da TV, o formato se sofisticou. Os debates ganharam regulamento, tempo cronometrado, sorteio de ordem e blocos com perguntas cruzadas. O artigo 46 da Lei das Eleições (Lei 9.504/1997) fixou o critério de convite: só participam candidatos de partidos com ao menos cinco parlamentares no Congresso, o que transformou a emissora em porteira do debate.

Foi nesse molde que se firmaram os ciclos-marco de 1989, 2014 e 2018 — e foi nele que a ausência de um favorito passou a ser, ela própria, notícia.

A virada do videocast

A partir dos anos 2010, o ambiente digital criou um novo gênero: o mesacast, mistura de videocast e mesa-redonda de rádio. O Flow Podcast, criado em 2018, tornou-se símbolo desse formato, com episódios longos, tom descontraído e alcance em YouTube, Spotify e redes.

Em 2022, a ida de Lula ao Flow quebrou recordes: a transmissão ultrapassou 1 milhão de espectadores simultâneos no YouTube em pouco mais de 20 minutos. A partir dali, o videocast deixou de ser nicho e passou a disputar diretamente a atenção que a TV aberta costumava concentrar.

O que a TV perde quando o convidado escolhe outro palco

O debate continua sendo o formato sem edição, o único em que dois candidatos ficam frente a frente, no mesmo instante, sob as mesmas regras. Mas se o candidato decidir que o palco ideal é um podcast — onde escolhe o tempo, o tom e evita o embate —, a televisão deixa de ser obrigatória.

O confronto em tempo real não desapareceu; ele apenas encontrou outro endereço, mais rápido e menos regulado.

A longa memória das ausências

Não é a primeira vez que um candidato falta. Em 2018, a ausência do então favorito virou fato noticiável. Em 2022, o comparecimento foi negociado até o último minuto. Em 2026, a novidade é que a ausência tem destino certo: o candidato não desaparece — ele simplesmente troca de canal.

Para a história da TV brasileira, isso marca uma transição: o telejornalismo já não é a única porta de entrada para o eleitor. A pergunta que fica é se o ritual do debate vai se adaptar ao público fragmentado ou se vai, aos poucos, perder a centralidade que teve por quase quatro décadas.

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Por Portal Bonner — redação independente.