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Do repórter de rua ao dono do próprio canal

Como a TV brasileira transformou repórteres de rua em marcas próprias, do sensacionalismo do Aqui Agora ao canal digital de Bocardi em 2026.

A repórter que virou a própria notícia

Durante décadas, o jornalista de TV foi uma voz sem rosto próprio — um funcionário em meio a uma engrenagem de câmeras, editores e diretores de imagem. Essa lógica começou a ruir nos anos 1990, quando o telejornalismo popular descobriu que o repórter de rua podia ser mais conhecido que o apresentador da bancada.

Foi ali que o repórter deixou de ser apenas condutor de informação e virou personagem. O público passou a reconhecê-lo na rua, a imitá-lo, a esperar por ele. A carreira do jornalista ganhou uma dimensão nova: a de marca pessoal.

Os formatos que deram rosto ao repórter

O Aqui Agora, lançado em 1991 no SBT, foi o marco divisor. Com câmera na mão e linguagem direta, o programa mostrou que a rua — e não o estúdio — podia ser o palco principal do telejornal. Na esteira dele surgiram dezenas de formatos populares, e o repórter passou a ser tão crucial quanto a pauta.

Na Band, o Brasil Urgente consolidou um estilo que misturava denúncia, prestação de serviço e espetáculo. Ali, o apresentador e a equipe de rua construíram uma proximidade com o espectador que a bancada tradicional nunca teve.

A rua como identidade editorial

Esses programas ensinaram uma lição que a TV aberta levaria três décadas para transformar em estratégia: o público não se conecta com instituições, mas com pessoas. O repórter que denuncia o buraco na rua e depois acompanha a obra era a prova viva de que o jornalismo podia ter consequência prática.

O público não quer apenas saber do problema. Quer ver quem resolve.

Do rosto conhecido à marca própria

Nos anos 2010, com a internet já reorganizando a atenção do público, âncoras e repórteres começaram a perceber algo novo: o poder de audiência estava migrando para o profissional, não para a emissora. Um apresentador carismático levava seu público consigo, independentemente da tela.

É nesse cruzamento que nasce o fenômeno contemporâneo. Rodolphe Bocardi, por exemplo, saiu da TV Globo depois de 20 anos, e em 2026 lançou o BocaTV Canal, um projeto digital com programação contínua, distribuído no YouTube e em canais FAST. A proposta é simples e reveladora: o repórter é a própria população, e o jornalista é o mediador da marca.

A grade como herança da TV aberta

O que chama atenção no novo modelo é que ele copia a TV aberta para existir no digital. Cerca de dez programas por dia, cerca de 12 horas de programação, uma rotina fixa que busca criar hábito. A fragmentação das plataformas, ironicamente, fez o jornalista buscar a velha lógica do agendamento.

O que essa virada revela

A trajetória do repórter de rua ao dono do próprio canal não é apenas uma história de empreendedorismo pessoal. É a história de como a TV brasileira, ao dar rosto ao jornalista, acabou criando ativos que hoje podem sobreviver sem ela.

A emissora que formou a marca agora disputa com a marca que formou. E o público, cada vez mais, escolhe a pessoa — não o canal.

Leia mais: A Globo e a arte de se reorganizar ao longo de décadas

Leia mais: O que a aposta do SBT em comentaristas revela sobre a TV

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Por Portal Bonner — redação independente.