g1 vinte anos: como o portal mudou a TV brasileira
Lançado em 18 de setembro de 2006 com 32 milhões de internautas no país, o g1 virou o maior site de notícias do Brasil e obrigou a TV a mudar.
Uma aposta arriscada em 2006
Em 18 de setembro de 2006, quando o Brasil tinha apenas 32,2 milhões de pessoas conectadas — segundo o IBOPE/NetRatings —, a Globo colocou no ar um site de notícias que ninguém sabia direito como chamar. O nome era temporário: g1, sigla do projeto interno. O batismo definitivo só veio depois, por sugestão de que era "uma marca mais moderna". Vinte anos depois, o mesmo endereço é o maior site de notícias do país.
A decisão nasceu no fim de 2004, quando a direção da Globo percebeu que sua maior presença digital era o Globo.com — um portal de e-mail, bate-papo e comércio eletrônico. Faltava um veículo nativo da internet que representasse a vocação da casa: contar histórias.
Uma redação em outro prédio, de propósito
A escolha mais simbólica do projeto foi separar fisicamente a redação. O então editor-chefe e repórter do Fantástico, Álvaro Pereira Jr., montou o núcleo em São Paulo, num prédio distante da TV, na região da Avenida Paulista.
"Nós optamos por ter um produto totalmente novo, uma equipe totalmente nova, para que eles construíssem a cultura da internet. A notícia em tempo real da internet é diferente mesmo do tempo real da TV", disse Juarez Queiroz, então diretor geral da Globo.com.
As contratações foram feitas entre obras e cheiro de cola. Vieram jornalistas da Folha de S.Paulo, do Estadão, da Veja, de agências de notícias. Márcia Menezes deixou a GloboNews para ser editora-chefe; Renato Franzini, com passagem por Folha e UOL, assumiu como editor-executivo.
O que a TV aprendeu com o site
O aprendizado foi nos dois sentidos. A partir do g1, o conceito de plantão foi quebrado: o que antes esperava o horário do telejornal passou a ir ao ar no instante em que acontecia.
"Quando chega o g1, é tudo para agora. Aconteceu, tem que estar no ar. Tanto que nós quebramos conceitos: o que havia anteriormente, plantão de um telejornal, o g1 quebra isso", contou Carlos Henrique Schroder, diretor da Central Globo de Jornalismo na época.
A estreia, prevista para agosto, atrasou algumas semanas para ajustar a resolução do site a monitores de 1024 pixels de largura — aposta em uma tecnologia que ainda não estava popularizada. O timing acabou sendo fortuito: faltavam duas semanas para a eleição presidencial daquele ano, e o site estreou poucos dias antes do acidente da Gol na Amazônia, em 29 de setembro, que matou 154 pessoas e virou uma das coberturas mais intensas da história do portal.
A expansão para o país
O primeiro passo fora do eixo Rio-São Paulo foi o g1 MG, em 13 de setembro de 2010, substituindo o Globominas.com. A primeira afiliada a aderir foi o g1 PR, em 7 de fevereiro de 2011. O plano resultou em mais de 50 páginas locais pelo Brasil, cada uma com redação própria dedicada ao jornalismo online.
Em 2014, o g1 ganhou redação própria na sede da Globo no Brooklin, em São Paulo. Em 2015, estreou na TV com o g1 em 1 minuto, boletins produzidos pela própria equipe do site e exibidos na programação.
Vinte anos de uma credibilidade construída devagar
A frase que resume a cultura daquela redação veio de Márcia Menezes:
"A gente sempre tinha uma preocupação enorme de não errar. De ser ousado, de ser moderno, de ser ágil, mas não queríamos errar, porque a nossa credibilidade a gente constrói levando dias, semanas, meses, e para perder é rápido."
Quando a internet brasileira saiu de 32 milhões para 186 milhões de usuários, em 2025, conforme o IBGE, o g1 já era parte do vocabulário nacional. A expressão "só acredito porque eu vi no g1" virou, para a equipe, a senha de que a aposta tinha dado certo.
Para o telejornalismo, o legado é direto: o site ensinou a TV a competir com o tempo real — e, depois, a depender dele para sobreviver na era dos smartphones, quando a notícia deixou de ter hora marcada para chegar.
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Por Portal Bonner — redação independente.