Hilton Gomes: o primeiro rosto do Jornal Nacional que o Brasil esqueceu
Antes de Cid Moreira e Bonner, Hilton Gomes foi quem abriu a primeira edição do JN em 1969. Repórter histórico, apresentador e correspondente internacional, sua trajetória reflete os primeiros passos do telejornalismo no país.
Quando o Jornal Nacional foi ao ar pela primeira vez, em 1º de setembro de 1969, a frase histórica que marcou a estreia não foi dita por Cid Moreira — mas por Hilton Gomes: "O Jornal Nacional da Rede Globo, um serviço de notícias integrando o Brasil novo, inaugura-se neste momento: imagem e som de todo o Brasil."
Meio século depois, o nome de Hilton Gomes é frequentemente esquecido nas retrospectivas sobre o telejornalismo brasileiro. Uma injustiça histórica que este artigo pretende reparar.
De repórter a âncora: a trajetória de Hilton Gomes
Nascido em Porto Alegre (RS) em 1938, Hilton Gomes começou sua carreira no rádio — porta de entrada da maioria dos grandes nomes do jornalismo brasileiro nas décadas de 1950 e 1960. Trabalhou na Rádio Gaúcha e na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, onde construiu uma reputação de precisão e voz firme.
Convidado por Armando Nogueira para integrar o time da recém-fundada TV Globo, Hilton tornou-se um dos primeiros contratados da emissora. Sua experiência em telejornalismo veio na prática: a Globo estava implantando o primeiro sistema de rede nacional do Brasil, e precisava de profissionais com capacidade de improviso diante das câmeras.
A primeira edição do JN: bastidores
A noite de 1º de setembro de 1969 foi de tensão no estúdio da Globo na Rua Von Martius, no Rio de Janeiro. O sistema de micro-ondas da Embratel — que integrava Rio, São Paulo, Porto Alegre e Curitiba — tinha sido inaugurado meses antes, e ninguém sabia ao certo se a transmissão em rede funcionaria sem falhas.
Hilton Gomes abriu a edição apresentando as principais manchetes. Ao seu lado, Cid Moreira — então um jovem locutor vindo da Rádio Bandeirantes de São Paulo — fazia sua estreia em âmbito nacional. A edição durou apenas 15 minutos e incluiu notícias que até hoje soam extraordinárias: o presidente Costa e Silva, com problemas de saúde, entregaria o país a uma junta militar; o Brasil se classificava para a Copa de 1970 com um gol de Pelé; e a previsão do tempo levada por Hilton em meros 16 segundos.
"Primeiro jornal realmente nacional da TV brasileira. É o Brasil ao vivo aí, na sua casa. Boa noite." — Cid Moreira, encerramento da primeira edição
Anos de ouro como correspondente
Após os primeiros anos no JN, Hilton Gomes migrou para o cargo de correspondente internacional da Globo em Nova York, onde cobriu eventos de grande relevância para o jornalismo mundial nos anos 1970. Sua experiência como correspondente — tema que voltou à tona em 2026 com William Bonner estreando como repórter de rua no Globo Repórter — mostra a versatilidade dos comunicadores da primeira geração da TV brasileira.
O legado de um pioneiro
Hilton Gomes trabalhou na Globo até os anos 1980, quando se desligou da emissora. Faleceu em 2018, deixando um legado que merece ser lembrado: foi ele quem, com sua voz grave e dicção precisa, disse as primeiras palavras do telejornal mais longevo da TV brasileira.
A história do Jornal Nacional não começa com Cid Moreira, nem com William Bonner. Começa com um gaúcho de Porto Alegre que entrou ao vivo, sem teleprompter, e conectou o Brasil pela primeira vez.
Leia mais: A estreia do Jornal Nacional em 1969: o Brasil em rede
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Por Portal Bonner — redação independente.