Morre Zuenir Ventura, referência do jornalismo, aos 95 anos
Jornalista e imortal da ABL, autor de 1968: o Ano Que Não Terminou e Cidade Partida, morreu nesta terça-feira no Rio; o país perdeu um mestre da reportagem.
Um mestre da reportagem brasileira
Morreu nesta terça-feira (22), no Rio de Janeiro, aos 95 anos, o jornalista e escritor Zuenir Carlos Ventura. Nascido em Além Paraíba, em Minas Gerais, em 1º de junho de 1931, ele construiu mais de 60 anos de carreira e se tornou uma das referências mais respeitadas da imprensa brasileira.
A morte foi confirmada pela família. Zuenir deixa a mulher, Mary Ventura, e dois filhos.
De pintor de parede a imortal da ABL
A trajetória começa longe das redações. Filho de Antônio José Ventura e de Herina de Araújo, mudou-se ainda menino para Nova Friburgo e trabalhou como pintor de paredes, contínuo de banco, faxineiro e balconista.
Em 1954 iniciou o curso de Letras Neolatinas na Faculdade Nacional de Filosofia, hoje UFRJ, e logo entrou no jornalismo. Também foi professor de Comunicação Verbal na Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI), instituição que ajudou a fundar em 1963.
Como colunista do jornal O Globo, escreveu até os últimos anos. Em 2015, tomou posse na Academia Brasileira de Letras como sétimo ocupante da cadeira nº 32, sucedendo o dramaturgo Ariano Suassuna.
Os livros que viraram história
Duas obras definem sua contribuição. Em "1968: o Ano Que Não Terminou", Zuenir reconstituiu o ano que abalou a política e a cultura brasileiras, da Passeata dos Cem Mil à decretação do AI-5. O livro é considerado um clássico da reportagem nacional e ganhou o Prêmio Jabuti em 1995.
Em "Cidade Partida", mergulhou na violência do Rio de Janeiro, acompanhando o cotidiano de moradores da favela do Vigário Geral. A obra se tornou referência obrigatória para quem estuda segurança pública e desigualdade no Brasil.
Zuenir também escreveu sobre a Amazônia e sobre Chico Mendes. Ao longo da carreira, recebeu ainda o Prêmio Esso de Reportagem e o Prêmio Vladimir Herzog de Jornalismo.
O legado de quem perguntava
A obra de Zuenir se caracteriza por uma escolha clara: o repórter no centro, ouvindo pessoas, em vez do comentarista na tribuna. Ele foi da geração que entendia o jornalismo como documento — o texto que guarda o que o país viveu.
Essa herança atravessa a televisão. Sua obra-prima inspirou a minissérie da Globo de 1992 que apresentou o período da ditadura a milhões de telespectadores que não o tinham vivido.
Leia mais: Anos Rebeldes: a minissérie que levou 1968 para a TV
Homenagens de colegas, leitores e instituições se multiplicaram ao longo do dia. Para além dos prêmios, seu maior legado é um método: apurar com paciência, escrever com clareza e tratar a história recente como assunto urgente, nunca como passado encerrado.
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Por Portal Bonner — redação independente.