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O debate da Globo e a tradição do confronto final na TV

Desde a redemocratização, o último debate da Globo selava a campanha presidencial. Em 2026, pela primeira vez, ele foi cancelado horas antes do ar.

Durante quase quatro décadas, o último debate presidencial da TV Globo funcionou como uma espécie de ritual de encerramento da campanha. Era o momento em que os candidatos se olhavam frente a frente, sem edição e sem intermediários, poucos dias antes de o eleitor entrar na cabine. Na noite de 1º de outubro de 2026, esse ritual não aconteceu. Pela primeira vez, a emissora cancelou o confronto menos de uma hora antes do horário previsto, às 21h30.

Um rito que nasceu com a redemocratização

A tradição dos debates na TV brasileira começou a se consolidar na eleição de 1989, a primeira disputa direta pela Presidência depois do regime militar. Naquele ano, um consórcio de emissoras dividiu a produção e exibiu o confronto entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva — o pool que inaugurou o formato no país.

Nos anos seguintes, a prática se institucionalizou. A Lei das Eleições (Lei 9.504/1997) fixou regras, como a obrigatoriedade de convidar candidatos de partidos com ao menos cinco parlamentares no Congresso. Nos ciclos de 2014 e 2018, os debates ganharam cenários próprios, blocos cronometrados e regras cada vez mais detalhadas, acertadas por escrito entre emissoras e campanhas.

Por que o debate final virou o mais importante

O cálculo das campanhas sempre tratou o último debate como o mais valioso. É o momento em que indecisos ainda podem ser convencidos e em que uma gafe ou um bom desempenho se torna notícia na véspera da votação. Por isso, durante décadas, a Globo ocupou uma posição singular: era a emissora que, desde a redemocratização, realizava o último e mais decisivo encontro da corrida presidencial.

Essa centralidade fez da emissora não apenas uma organizadora, mas uma espécie de árbitro informal do calendário eleitoral. Definir data, horário, número de participantes e formato era, na prática, definir o próprio desenho do confronto democrático.

"A Globo tem longa tradição na organização de debates eleitorais, nosso propósito é promover a discussão de ideias para o Brasil", afirmou a emissora em nota, ao justificar o cancelamento.

2026: a noite em que o palco foi desmontado

O que ocorreu em 2026 rompeu essa lógica. Na terça-feira (29), uma decisão do presidente do TSE obrigou a inclusão de Romeu Zema (Novo). Horas antes do programa, a ministra do TSE Estela Aranha proibiu a exibição do púlpito vazio de Lula e as perguntas dirigidas ao ausente. Em seguida, o ministro do STF Gilmar Mendes determinou a participação de Renan Santos (Missão). Sob "insegurança jurídica", a emissora desistiu.

A regra cancelada era justamente uma tradição do formato: em caso de ausência, o púlpito do candidato permanecia no cenário, identificado por uma placa, e os presentes podiam dirigir perguntas a ele. Era a forma que a TV havia encontrado de expor publicamente a ausência — e transformá-la, ela mesma, em informação.

O legado de um formato em xeque

O episódio deixa uma pergunta histórica. Se o debate final era o instrumento que a TV oferecia à democracia para que o eleitor comparasse projetos sem filtro, o que acontece quando esse instrumento é retirado da grade? A resposta de 2026 ainda está em aberto, mas o fato é inédito: nunca antes um debate presidencial da Globo foi cancelado tão perto do ar.

Da redemocratização aos tempos de algoritmo, o confronto final migrou do estúdio para telas alternativas. O rito que parecia imune às transformações da TV mostrou-se, afinal, tão frágil quanto o calendário que o sustentava.

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Por Portal Bonner — redação independente.