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O debate que encolheu e o que a ausência dos favoritos revela

A eleição de 2026 terá o menor número de debates em 28 anos. Não é só a TV que perde — é o eleitor quem fica sem o confronto em tempo real.

A tese: a ausência virou estratégia

Durante décadas, o debate televisivo foi tratado como uma obrigação cívica: quem fugia, perdia. Em 2026, essa lógica se inverteu. A eleição deve ter o menor número de debates no primeiro turno desde 1998, e o motivo não é falta de convite — é falta de comparecimento. A ausência deixou de ser vergonha e passou a ser cálculo.

Para quem lidera as pesquisas, o debate é risco puro: expõe erros ao vivo, dá palco ao adversário e pode transformar uma vantagem consolidada em dúvida. Para quem está atrás, é a única chance de mudar o jogo sem depender de dinheiro ou tempo de campanha. Não por acaso, os favoritos deste ciclo foram os grandes ausentes.

Evidências de um ciclo que encolheu

O encolhimento não foi abrupto: foi sequencial e revelador.

  • 23 de agosto — o primeiro debate reuniu apenas três candidatos, nenhum favorito. O formato estreou esvaziado.
  • 14 de setembro — o consórcio de SBT, CNN Brasil e RedeTV! desistiu do encontro. Produzir debate sem os líderes virou custo sem retorno.
  • 27 de setembro — a Record cancelou o seu, alegando que Lula e Flávio somam mais de 70% das intenções de voto.
  • 1º de outubro — a Globo mantém o encontro, mas com comparecimento condicionado: cada favorito só vai se o outro for.

O ponto central é que a disputa deixou de ser entre candidatos e passou a ser entre candidatos e a emissora. Quem define se haverá debate não é mais o calendário eleitoral, e sim a conveniência de quem está na frente.

O contraponto: a TV não perdeu alcance

Seria fácil concluir que a televisão está enfraquecida. Os números não sustentam essa leitura. Em setembro, a cobertura da sessão do Supremo Tribunal Federal pela Globo e pela GloboNews alcançou 50,7 milhões de pessoas em um único dia — recorde do ano para o canal de notícias.

A TV aberta continua capaz de reunir o país em torno de um acontecimento ao vivo. O que mudou não foi o alcance da televisão, e sim a assimetria de interesse: a emissora precisa do debate para justificar o horário nobre; o favorito não precisa de nada.

Quem paga a conta é o eleitor

O debate é o único formato em que dois adversários respondem ao mesmo tempo, sem edição, sem corte e sem algoritmo escolhendo o que o público vê. É o oposto do vídeo curto, do corte selecionado e do post impulsionado — e é exatamente por isso que se tornou inconveniente para quem tem algo a perder.

A pergunta de 2026 não é se a TV ainda importa. É se um formato cujo valor está na presença dos ausentes pode sobreviver sem eles.

Há um precedente que ajuda a responder: o segundo turno. Quando só dois candidatos estão no páreo, não há como diluir responsabilidade entre convidados, e a ausência se torna insustentável. Se a eleição caminhar para o confronto direto, o debate volta a ser inevitável — não por virtude, mas por falta de esconderijo.

Se o palco de 1º de outubro ficar vazio, será o eleitor quem perde. A televisão não sairá menor: o que sairá menor é o espaço em que a democracia se dá a ver sem intermediários.

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Por Portal Bonner — redação independente.