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O que o debate cancelado diz sobre o poder da TV em 2026

O formato que reunia o país virou peça descartável na campanha: os favoritos o esvaziam e a alternativa migra da grade para o streaming.

A cadeira que ninguém quer ocupar

O cancelamento do debate do pool "O Momento da Decisão" — anunciado em 8 de setembro, após Lula e Flávio Bolsonaro deixarem o prazo de confirmação expirar — não é um acidente de calendário. É a fotografia de uma inversão de poder. Durante décadas, o debate na TV foi uma prova que o candidato precisava enfrentar. Em 2026, virou um risco que ele pode simplesmente recusar.

O número é eloquente: o maior consórcio de veículos já montado no Brasil para organizar um debate — 11 empresas de comunicação — não foi suficiente para garantir que o encontro acontecesse.

O que mudou de lado

A lógica é simples. Quem lidera as pesquisas não tem nada a ganhar no confronto direto e tem muito a perder. Cada minuto de embate é uma chance de erro, de desgaste, de manchete negativa. Já quem está atrás precisa exatamente do contrário: exposição, comparação, contraste.

Por isso o resultado é o que se viu. Os favoritos esvaziam o debate e preservam a sabatina individual, formato em que a pauta se concentra neles e não há contraditório imediato. Os demais — Caiado, Renan Santos, Zema, Cury — ficam com o palco vazio e recorrem ao debate paralelo e às lives conjuntas, tentando recriar, na margem, a arena que lhes foi negada.

A TV perdeu o poder de convocar

O dado central aqui não é político, é midiático. A TV perdeu a capacidade de obrigar. Na era do evento único, recusar um debate da Globo ou de um grande pool custava caro — era um sinal de fraqueza, uma manchete de covardia. Hoje, a recusa é calculada, racionalizada e comunicada sem constrangimento.

O debate deixou de ser uma obrigação da campanha e virou uma peça de barganha — usada quando convém, descartada quando não.

Isso se conecta ao movimento mais amplo da atenção fragmentada. A TV aberta já não é o único lugar onde o eleitor se informa. Com a audiência pulverizada entre streaming, redes e lives, o candidato encontra canais alternativos para falar sem intermediário — e sem adversário.

A migração para o digital

Vale notar para onde o palco está indo. As lives conjuntas negociadas pela terceira via não são um simples plano B: são um formato em que o candidato controla ambiente, tempo, corte e distribuição. Menos risco, mais controle.

É o mesmo vetor que reorganizou todo o consumo de mídia nos últimos anos. A grande reportagem migrou para o streaming, o telejornal perdeu o monopólio da informação e o espetáculo esportivo se dividiu entre TV e internet. O debate eleitoral apenas segue o roteiro.

O risco que sobra

Há um custo nessa transição, e ele é democrático antes de ser comercial. O debate na TV, com regras iguais e contraditório obrigatório, era o único momento em que o eleitor via os candidatos lado a lado, sob as mesmas perguntas. Se ele se fragmenta em eventos paralelos e lives autogestionadas, cada candidato fala para a sua própria bolha.

A TV continua sendo o único lugar capaz de reunir milhões de pessoas num mesmo instante. O problema é que ela já não consegue convocar quem não quer ser convocado. E, num país que ainda se informa majoritariamente pela tela, isso deixa um vazio que nenhum consórcio — por maior que seja — consegue preencher sozinho.

Leia mais: Pool cancela debate presidencial após Lula e Flávio faltarem

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Por Portal Bonner — redação independente.