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Por que a entrevista íntima virou o novo horário nobre

Enquanto o debate presidencial esvazia, o videocast intimista domina a atenção: a TV descobre que a conversa vende mais que o confronto.

Há poucos dias, o primeiro debate presidencial transmitido pela TV aberta neste ciclo eleitoral registrou 2 pontos de ibope — queda de 84% em relação a 2022 —, enquanto um pool de 11 veículos cancelava os encontros de 14 e 18 de setembro por ausência dos favoritos. No mesmo fim de semana, um videocast em que um ex-âncora conversa com a ex-mulher dominava as redes. Os dois fatos, lidos juntos, dizem algo incômodo: a TV brasileira está perdendo o confronto e descobrindo a intimidade.

A tese: a atenção migrou do embate para a conversa

Durante décadas, o formato mais poderoso da televisão brasileira foi o confronto: o debate entre candidatos, a sabatina tensa, a entrevista que expõe contradições. Esse formato pressupõe um público disposto a acompanhar um embate longo, com regras, réplicas e tréplicas.

Esse público existe, mas está encolhendo. O que cresceu foi outro: o público que quer conhecer pessoas, não assistir a embates. O videocast intimista responde a essa demanda com uma proposta simples — quarenta e cinco minutos com um convidado, sem pressa e sem placar.

As evidências

  • O debate esvaziou: a ausência de Lula e Flávio Bolsonaro reduziu o primeiro confronto de 2026 a três candidatos e a uma audiência residual.
  • A sabatina individual cresceu: entrevistas concedidas por candidatos dentro do Jornal Nacional registraram picos de audiência maiores do que qualquer debate do ciclo.
  • O videocast ocupou o vácuo: conversas longas com figuras conhecidas da TV passaram a gerar repercussão por dias, algo que o telejornal diário raramente consegue.

O ponto comum é o controle. No debate, o entrevistado se expõe ao inesperado. Na sabatina e no videocast, ele escolhe o terreno. A TV não perdeu o público — o público migrou para o formato em que o entrevistado aceita aparecer.

O contraponto

É preciso resistir à leitura fácil de que a intimidade substitui o escrutínio. Conversas agradáveis não fiscalizam o poder. Um país que só assiste a entrevistas confortáveis perde a capacidade de confrontar seus candidatos com perguntas duras.

Por outro lado, é ingênuo supor que a TV recuperaria a audiência insistindo no formato que a esvaziou. O fracasso do debate de agosto não foi de produção — foi de demanda. Transmitir um confronto sem os principais candidatos é oferecer ao público um produto que ele já rejeitou.

A saída, se houver, não é escolher entre um formato e outro, mas usar o formato que atrai para fazer o trabalho que importa: aproveitar a atenção que a conversa conquista para construir escrutínio real, com tempo para cobrar respostas.

Conclusão

O videocast não é o inimigo do jornalismo de televisão. É o herdeiro de uma linhagem que sempre existiu na TV brasileira — a entrevista longa. O problema não é a conversa ser íntima, mas a possibilidade de ela ser apenas agradável.

Se a TV aprendeu a conversar, precisa agora aprender a fazer a pergunta difícil dentro da conversa. É esse equilíbrio — entre proximidade e rigor — que definirá quem ainda terá relevância quando a próxima eleição chegar.

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Por Portal Bonner — redação independente.