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Por que a TV terceirizou o debate econômico da eleição

Com o confronto direto esvaziado, as emissoras desceram um degrau: o debate econômico migrou para porta-vozes e ciclos de entrevistas.

Nesta terça-feira (15), em horários diferentes, acontecem dois eventos que dizem muito sobre como a televisão brasileira passou a cobrir esta eleição. A Record abre seu ciclo de entrevistas com presidenciáveis no Jornal da Record. No mesmo dia, Valor, Globo e CBN colocam frente a frente os porta-vozes econômicos das campanhas. Em nenhum dos dois, o candidato precisa enfrentar um adversário.

Não é coincidência. É o resultado de uma escolha que as emissoras fizeram depois de agosto: quando o confronto direto ficou caro demais, a TV desceu um degrau e terceirizou o debate.

O que os números dizem

O diagnóstico que empurrou essa mudança está claro. O primeiro debate presidencial do ciclo, na Band, em 23 de agosto, reuniu apenas três candidatos — que somavam cerca de 11% das intenções de voto — e marcou 2 pontos de audiência na Grande São Paulo, contra 12,4 pontos em 2022. É uma queda da ordem de 84%.

Na semana passada, o pool liderado pelo SBT cancelou os debates de 14 e 18 de setembro porque Lula e Flávio Bolsonaro não confirmaram presença. A regra do consórcio era explícita: só valia a pena fazer o confronto com os favoritos no palco.

O recado foi assimilado. O formato do embate coletivo, que organizou a política televisiva brasileira desde 1989, perdeu sua função prática neste ciclo.

A tese: o confronto não acabou, desceu de nível

Ao migrar para os porta-vozes econômicos, a TV preserva o essencial de um debate — dois lados, um tema em disputa, argumentos que se confrontam — sem expor os candidatos ao risco que eles passaram a evitar.

  • Para o candidato: o número da conta pública é defendido por um economista, não pela voz que pede o voto. O desgaste, se houver, é absorvido por outro.
  • Para a emissora: mantém o compromisso de debate sem depender da boa vontade de quem está na frente nas pesquisas.
  • Para o eleitor: sobra o conteúdo técnico e desaparece a comparação de temperamento, que sempre foi o que o debate oferecia de mais valioso.

É uma terceirização em sentido literal: o confronto continua sendo televisionado, mas quem o protagoniza deixou de ser quem será votado.

O contraponto: ainda há valor no formato novo

Seria simplista tratar a mudança como pura perda. Os porta-vozes econômicos trazem algo que os candidatos raramente entregam em palco: a consistência das propostas. Numa eleição em que a economia tende a definir o voto, ter um especialista explicando o que cada campanha pretende fazer com juros, câmbio e gasto público é informação que o eleitor dificilmente obtém de outro jeito.

O mesmo vale para os ciclos de entrevistas individuais. As sabatinas da Globo provaram ter público: a de Lula, em 27 de agosto, marcou 26 pontos e superou a novela das nove. O formato longo, com um candidato só e perguntas de verdade, ainda reúne gente — e Tralli não foi passivo na entrevista.

Ou seja: não é a TV que perdeu o interesse do público. É o formato do confronto que perdeu.

O eleitor fica sem a peça mais importante

Ainda assim, há uma perda difícil de contornar. O debate presidencial existe, desde 1989, para produzir uma coisa que nenhum outro formato reproduz: a reação do candidato ao ser contrariado. É ali que se vê quem perde a linha, quem improvisa, quem se prepara e quem desmonta sob pressão.

Ciclos de entrevistas e painéis de porta-vozes não testam isso. Testam preparo, não têm como medir autodomínio. E é justamente o autodomínio que o eleitor mais cobra de quem pode chegar ao Planalto.

A TV como organizadora de uma conversa fragmentada

O que sobra de comum entre os formatos de 2026 é a tentativa das emissoras de seguir sendo o lugar onde a eleição acontece. A Globo faz sabatinas, mantém o debate de 1º de outubro, leva os âncoras às ruas e, agora, participa do encontro econômico com Valor e CBN. A Record monta seu próprio ciclo. Cada uma cuida do seu pedaço.

O problema é que a soma desses pedaços não reconstrói o que existia antes: um momento único em que o país inteiro assistia à mesma coisa ao mesmo tempo. No lugar dele, há uma grade distribuída de eventos paralelos, cada um competindo por uma fatia de atenção.

A TV ganhou fôlego ao se adaptar. Só não é mais o palco único — e ninguém, até agora, inventou o que ocupa esse lugar.

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Por Portal Bonner — redação independente.