Globo perde os elos de 1965: a memória da TV em questão
Com a morte de Gracindo Júnior, encolhe a geração que viu a emissora nascer. O desafio de a TV brasileira preservar a própria história.
A morte que escancara um problema de memória
A morte de Gracindo Júnior, aos 83 anos, não é apenas a perda de um grande ator e diretor. É o anúncio de um problema estrutural da televisão brasileira: a geração que fundou a TV Globo está desaparecendo, e com ela parte da memória viva do país.
Gracindo participou da transmissão que marcou a entrada no ar da emissora, em abril de 1965. Quando alguém que esteve na estreia parte, apaga-se um testemunho que nenhum acervo, por mais completo, consegue reproduzir por inteiro.
O que a TV faz — e o que não faz — com a própria história
Há décadas a Globo investe em memória institucional, com projetos de preservação de acervo e a documentação de bastidores. Esse esforço é real e valioso. Mas ele convive com uma indústria que, historicamente, descarta a própria produção: boa parte dos primeiros anos das emissoras brasileiras foi perdida, apagada ou simplesmente nunca registrada.
O risco é duplo. De um lado, perde-se o dado — quem dirigiu o quê, quem estreou quando. De outro, e mais grave, perde-se a textura humana: a lembrança de como era produzir televisão sem replay, sem redes, no improviso do ao vivo dos anos 1960.
O elo entre a fundação e o presente
Gracindo Júnior ocupava um lugar raro na história: ligava o momento fundador de 1965 ao auge da indústria de entretenimento dos anos 1980, quando dirigiu Os Trapalhões. É justamente essa ponte — entre a origem e o espetáculo consolidado — que se rompe a cada morte de uma figura dessa geração.
Memória como ativo, não como nostalgia
Para a TV aberta, que disputa atenção numa era fragmentada, a própria história pode virar diferencial de credibilidade. O público que hoje acompanha o telejornalismo da Globo, por exemplo, também consome essa memória quando a emissora reconta seus grandes momentos. Preservar quem construiu a casa não é saudosismo — é garantir que o relato da origem não dependa apenas de arquivos.
O que fica quando os protagonistas partem
A morte de Gracindo Júnior deixa uma pergunta incômoda: quantas histórias da fundação da TV brasileira se vão com cada um de seus personagens? Enquanto não houver um esforço sistemático de entrevista, registro e escuta dessa geração, o país corre o risco de conhecer a própria televisão apenas pela versão corporativa, sem a memória de quem realmente esteve no primeiro dia.
Leia mais: Morre Gracindo Júnior, ator da inauguração da Globo, aos 83
Leia mais: Gracindo Júnior e a geração que inaugurou a Globo
📖 LIVRO RECOMENDADO
Supercomunicadores
Charles Duhigg
Como desbloquear a linguagem secreta da comunicação
VER NA AMAZON →Leia também
Por que ninguém 'ocupa o lugar' de Bonner no JN
Quando o âncora personifica a instituição, o sucessor ocupa a cadeira, não o lugar: por isso a troca de rosto não fecha a era Bonner no Jornal Nacional.
Ler matéria →Por que a sabatina de Lula superou a novela na TV aberta
O monólogo vigiado derrotou o entretenimento e o debate esvaziado da Band: a sabatina virou o novo evento capaz de reunir o país na TV aberta.
Ler matéria →A sabatina virou a praça que engole até o entrevistador
Da troca de Tralli por Lo Prete à entrevista de Bonner por Fátima, o formato sabatina domina 2026 — e revela a disputa da TV pela atenção.
Ler matéria →Comentários
Deixe seu nome e e-mail. Os comentários passam por moderação antes de serem publicados.
Por Portal Bonner — redação independente.