← Notícias

Por que o portal virou a espinha dorsal do jornalismo de TV

O g1 faz 20 anos e a Globo comemora 50 milhões de pessoas alcançadas numa sessão do STF: o digital deixou de ser apêndice para virar a estrutura do jornalismo.

A tese

Quando o g1 foi lançado, em 18 de setembro de 2006, a Globo fez uma escolha que parecia contraintuitiva: montou a redação do site em outro prédio, com equipe nova, para não contaminar a cultura digital com a lógica da TV. Vinte anos depois, a pergunta que importa não é o que o site virou. É o que a TV virou por causa dele.

A resposta está nos números desta semana. Na terça-feira (15), a cobertura da sessão do STF mobilizou 50,7 milhões de pessoas entre TV Globo, GloboNews e g1 — com a GloboNews registrando sua maior audiência e alcance do último ano e liderança isolada entre os canais de jornalismo. A sequência de veículos que divulgaram o dado (Tela Viva, Portal da TV, Portal TV Streaming, OFuxico, Portal Leo Dias) mostra que o número virou, ele mesmo, notícia de mercado.

Leia mais: g1 completa 20 anos e o JN relembra sua estreia em 2006

As evidências

O dado mais eloquente da reportagem de aniversário do g1 não é o crescimento do site, e sim uma frase de Carlos Henrique Schroder, diretor da Central Globo de Jornalismo em 2006:

"Quando chega o g1, é tudo para agora. Aconteceu, tem que estar no ar. Tanto que nós quebramos conceitos: o que havia anteriormente, plantão de um telejornal, o g1 quebra isso."

Leia a frase com atenção. Não foi o jornalismo digital que se adaptou ao modelo da TV — foi a TV que abandonou o próprio conceito de plantão porque o site tornou a espera insustentável. A grade, que sempre foi o ativo central da televisão, passou a operar sob a regra do tempo real imposta de fora.

O segundo sinal é o alcance. Quando a Globo divulga 50,7 milhões de pessoas, ela não está medindo televisores ligados: está medindo um público somado de TV aberta, canal pago, site e redes. A métrica do jornalismo deixou de ser ibope e passou a ser alcance multiplataforma — o que só faz sentido num ecossistema em que o digital define o tamanho real do público.

Os contrapontos

Há uma leitura menos triunfalista possível. Se em 2006 o Brasil tinha 32,2 milhões de conectados e hoje tem 186 milhões — segundo o IBGE —, o crescimento do g1 é, em boa medida, o crescimento da internet brasileira. O site não criou o hábito; surfou nele.

E a estrutura digital cobra seu preço. A separação física que garantiu a cultura própria do g1 também criou, por duas décadas, a necessidade permanente de costurar linguagens, métricas e prioridades entre redações que não se enxergavam. A frase de Márcia Menezes sobre credibilidade — "para perder é rápido" — segue valendo para as duas pontas, e a velocidade digital multiplica a exposição ao erro.

Leia mais: g1 vinte anos: como o portal mudou a TV brasileira

Conclusão

Vinte anos depois, o achado do g1 não foi tecnológico: foi cultural. A Globo entendeu, em 2004, que precisaria de uma equipe capaz de esquecer o que sabia sobre tempo, e a TV brasileira colheu o resultado — um jornalismo que hoje existe antes, durante e depois da grade.

O aniversário coincide com outro movimento de renovação na casa: a Globo prepara a reformulação do time de repórteres do Jornal Nacional para 2027, com foco em linguagem mais dinâmica. Duas décadas depois, é o mesmo aprendizado do g1 sendo aplicado à bancada mais antiga da televisão brasileira.

📖 LIVRO RECOMENDADO

Supercomunicadores
Charles Duhigg

Como desbloquear a linguagem secreta da comunicação

VER NA AMAZON →

Comentários

Deixe seu nome e e-mail. Os comentários passam por moderação antes de serem publicados.

Por Portal Bonner — redação independente.