← Notícias

A TV perdeu o monopólio de enquadrar a multidão

Quando o celular no meio do povo filma a manifestação inteira, a escolha de imagem da TV deixa de ser invisível e vira alvo de escrutínio público.

A escolha que deixou de ser invisível

Toda cobertura de rua é uma soma de escolhas: o ângulo da câmera, o tempo no ar, a palavra usada, o corte na fala do repórter. Por décadas, essas decisões foram tomadas dentro da redação e raramente checadas pelo público — porque ninguém tinha outra câmera no mesmo lugar. Em outubro de 2026, isso mudou de vez.

Quando milhares de celulares filmam a mesma manifestação, ao vivo e de todos os ângulos, o enquadramento da TV deixa de ser neutro e vira um objeto de comparação. Basta um corte seco na fala de um repórter, ou um take fechado num mar de gente, para que a diferença entre o que a emissora mostrou e o que milhares viram apareça em segundos nas redes.

Por que a crítica agora tem mais força

O primeiro motivo é material: existe uma contra-imagem. Não se trata mais de opinião contra opinião, mas de imagem contra imagem. O espectador não precisa acreditar em quem critica; ele pode comparar.

O segundo motivo é histórico. A memória de 1984, quando o comício da Praça da Sé foi enquadrado pelo Jornal Nacional dentro das comemorações do aniversário de São Paulo, deixou uma cicatriz. Toda vez que o público desconfia de uma escolha editorial da TV em relação à rua, essa memória é reativada.

A desconfiança não nasce da imagem que a TV mostra, mas da imagem que ela deixou de mostrar.

O risco de transformar toda escolha em suspeita

É preciso um contraponto honesto. Nem toda crítica a uma cobertura tem razão: editar é escolher, e nenhuma emissora exibe cada minuto de um ato. O Fantástico, por exemplo, deu tempo equivalente a Lula e a Flávio Bolsonaro — o que mostra que equilíbrio existe quando há método.

Mas o ponto central da análise não é se a Globo foi tendenciosa ou não. É que a TV perdeu o monopólio de enquadrar a multidão. O poder de definir o que a rua "foi" migrou, em parte, para a soma dos olhares que transmitem ao vivo. E esse é um deslocamento estrutural, não um episódio.

O que está em jogo

Num país em disputa eleitoral apertada — 1º turno com Flávio em 47,03% e Lula em 45,16% —, a cobertura de manifestações deixa de ser matéria técnica e vira campo de batalha. De um lado, aliados de Flávio aconselham que ele troque o debate da Band pelas ruas. De outro, Lula aposta nos atos e nos debates para virar o jogo.

A TV brasileira construiu sua autoridade sobre a promessa de mostrar o país a todos ao mesmo tempo. Quando essa imagem é contestada por milhares de telas menores, o crédito da emissora passa a ser negociado em tempo real. Ganha quem entender que a cobertura de rua, hoje, é julgada não pelo que mostra, mas pelo que decide esconder.

Leia mais: Globo é criticada nas redes por cobertura de atos pró-Lula

Leia mais: Diretas Já e a rua que a TV aprendeu a filmar

📖 LIVRO RECOMENDADO

Supercomunicadores
Charles Duhigg

Como desbloquear a linguagem secreta da comunicação

VER NA AMAZON →

Comentários

Deixe seu nome e e-mail. Os comentários passam por moderação antes de serem publicados.

Por Portal Bonner — redação independente.