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Por que ainda incomoda a repórter que insiste em perguntar

A morte de Sônia Carneiro expõe o que o jornalismo brasileiro ainda teme: a pergunta sem cerimônia, feita a quem manda, sem pedir licença.

A pergunta que ninguém queria responder

A morte de Sônia Carneiro, no domingo (20), não deveria ser assunto de análise de mídia. Obituário é gênero de notícia. Mas acontece que a morte dela reabriu, sem querer, uma discussão que o jornalismo brasileiro prefere manter no canto da sala: por que a pergunta direta ainda incomoda tanto quem está no poder?

Repórter política do Palácio do Planalto desde 1971, Soninha era conhecida por fazer exatamente isso. Perguntava. Fazia a pergunta que ninguém havia escrito no release, a que o assessor não tinha antecipado, a que o entrevistado não queria ouvir.

A tese: a pergunta virou risco de imagem

Nas últimas três décadas, o jornalismo brasileiro profissionalizou a gestão do risco. Assessorias de imprensa cresceram, protocolos de entrevista se multiplicaram, perguntas passaram a ser previamente enviadas e respostas passaram a ser ensaiadas em treinamento de mídia.

O efeito colateral é conhecido de quem trabalha na área: a entrevista deixou de ser um espaço de surpresa e virou um ritual administrado. Quando tudo está combinado, a pergunta perde a função. Ela deixa de ser instrumento de apuração e passa a ser peça de encenação.

O sintoma do púlpito vazio

Nada ilustra melhor esse deslocamento do que a cobertura eleitoral de 2026. O primeiro debate presidencial na Band, em agosto, teve púlpitos vazios dos dois favoritos e terminou com índices de audiência muito abaixo do formato histórico. Os principais candidatos preferiram o palco controlado da sabatina individual, onde a pauta fica concentrada no próprio entrevistado.

É a vitória da pergunta negociada sobre a pergunta que incomoda. E não por acaso: em um ambiente de atenção fragmentada, o risco de uma resposta mal calculada é o único custo que os candidatos não querem pagar.

Os contrapontos: há razões do outro lado

Seria simplista tratar toda cautela como censura velada. Há argumentos razoáveis:

  • Contexto é responsabilidade editorial. A pergunta sem contexto pode produzir mais desinformação do que esclarecimento — especialmente quando o corte circula fora do seu enquadramento original;
  • A entrevista ao vivo é rara e valiosa. Dar a ela um tom de emboscada pode levar os entrevistados a simplesmente não ir, como já ocorreu em 2026 com candidatos que abandonaram o formato do debate;
  • A imprensa não é a única com agenda. Perguntas carregadas de tese prévia podem substituir a apuração por opinião disfarçada de escrutínio.

Nenhum desses argumentos, porém, elimina o problema central que a trajetória de Soninha coloca na mesa: jornalismo que não pergunta é tudo menos jornalismo.

O que fica: a pergunta como patrimônio

A televisão e o rádio brasileiros construíram sua credibilidade sobre um gesto simples e barato: alguém olhando para quem tem poder e pedindo explicação em nome de um público que não pode estar ali.

Todo aparato tecnológico que se somou desde então — a transmissão ao vivo, os portais, os cortes, os vídeos verticais — continua servindo à mesma função. Não é o equipamento que incomoda. É a disposição de usá-lo.

Ao vê-la carregando seu pesado gravador, muitos simplesmente fugiam.

Que a fuga seja lembrada como elogio profissional e não como passagem de época. É a única homenagem que de fato importa.

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Por Portal Bonner — redação independente.