Por que Lula e Flávio fogem do debate mas aceitam o JN
Com os dois favoritos na bancada da Globo, a sabatina vira o palco negociado da eleição. Entenda o que a 'cola na mão' revela sobre o poder da TV em 2026.
Uma das imagens mais reveladoras da campanha de 2026 aconteceu longe de um palanque: na bancada do Jornal Nacional, quando Flávio Bolsonaro apareceu em sabatina individual com uma "colinha" escrita na mão. O gesto, prontamente ridicularizado nas redes, condensa uma tese sobre o momento da TV brasileira.
Na semana entre o debate da Band e as duas sabatinas da Globo, um fato ficou claro: Lula e Flávio Bolsonaro fogem do confronto, mas aceitam o JN. Os dois favoritos deixaram os púlpitos vazios da Band em 23 de agosto — num evento que marcou apenas 2 pontos de ibope — e, dias depois, sentaram-se, um a um, diante de César Tralli para uma entrevista individual.
A tese
O palco que se negocia prevalece sobre o palco que se impõe. O debate, formato de confronto direto, expõe o candidato ao imprevisível: o adversário, a pergunta não esperada, a reação em tempo real. A sabatina individual, ao contrário, entrega um monólogo controlado, com pauta previsível e tempo generoso — exatamente o ambiente em que uma "cola na mão" pode funcionar.
O que a cola revela
Não é coincidência que a colinha tenha aparecido num palco controlado e não no debate. Ela é o sintoma visível do cálculo eleitoral na era da atenção fragmentada: o candidato não busca mais convencer pelo confronto, e sim administrar a própria imagem num ambiente em que pode ensaiar cada resposta.
As evidências da semana
Os números sustentam o argumento. O debate da Band, com apenas três candidatos somando 11% das intenções de voto, registrou a menor audiência de um confronto inaugural desde a redemocratização. Já as sabatinas atraíram os dois favoritos que, juntos, concentram a maior parte da disputa — Lula com 39% e Flávio com 33%, segundo o Datafolha.
A Revista Fórum resumiu o fenômeno: a sabatina de Lula no JN expôs a "agenda (pouco) oculta da Globo para 2026". A emissora, que perde relevância no confronto direto, mantém seu poder justamente no ritual individual — aquele onde o candidato precisa do palco mais do que o palco precisa do candidato.
Contrapontos
Há quem veja nas sabatinas um ganho de escrutínio, não de subserviência. Tralli, na entrevista com Lula, rebateu o chamado "PowerPoint mentiroso" confirmando a retratação da Globo — sinal de que a bancada não é passiva. A sabatina, nessa leitura, preserva a função de cobrança que o púlpito vazio do debate perdeu.
O contraponto, porém, não apaga o desequilíbrio estrutural: o candidato escolhe o palco, o formato e, em muitos casos, o momento. A cola na mão, ao fim, é a metáfora perfeita desse controle — o ensaio que se disfarça de espontaneidade.
Conclusão
Quando os dois favoritos trocam o confronto que despencou nos números pelo monólogo que os protege, a TV brasileira confirma uma virada: o debate morre como evento de massa, e a sabatina individual se consagra como o palco negociado da democracia televisiva. O preço, como mostrou a colinha, é ver o candidato cheio de respostas — mas raramente pronto para o que não estava escrito em sua mão.
Leia mais: Flávio usa 'cola na mão' e cita Lula 17 vezes na sabatina do JN
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Por Portal Bonner — redação independente.