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A cola na mão: os recados que os candidatos levam à TV

De Jair a Flávio Bolsonaro, a 'colinha' virou marca das entrevistas eleitorais na TV. A história do recurso que expõe o palco controlado da sabatina.

Na noite de sexta-feira, 28 de agosto de 2026, Flávio Bolsonaro sentou-se na bancada do Jornal Nacional para a sabatina individual com os presidenciáveis. Mas foi um gesto pequeno, e não uma resposta à altura do cargo, que roubou a cena: o candidato levava uma "colinha" escrita na mão, anotações que a câmera flagrou e que viraram meme instantâneo nas redes.

O detalhe não era inédito na política brasileira. Ao contrário: fazia parte de uma tradição televisiva que começou como piada e se consolidou como método. "Flávio imita o pai e leva 'cola' na mão para sabatina no Jornal Nacional", estampou o Diário do Centro do Mundo. E os espectadores lembraram na hora do patriarca.

O ancestral da colinha

Em 2018, Jair Bolsonaro já havia aparecido com anotações manuscritas em entrevistas de TV, num recurso que virou marca registrada de suas aparições eleitorais. Em 2022, a Folha de S.Paulo registrou o episódio com naturalidade jornalística: "Bolsonaro repete 2018 e leva 'cola' na mão para entrevista ao JN", título publicado em 22 de agosto daquele ano.

O método, hoje, cruzou gerações. A colinha de Flávio na sabatina do JN em 2026 é o desdobramento direto de um recurso que, longe de ser vergonha, tornou-se código de família no clã Bolsonaro.

O palco controlado da sabatina

Há uma razão estrutural para a cola funcionar melhor na sabatina do que no debate. Na sabatina individual, o candidato enfrenta um entrevistador com pauta concentrada na própria trajetória e pode preparar resposta a cada tema previsível. No debate presidencial, o confronto direto e as perguntas dos adversários tornam a anotação praticamente inútil.

Do confronto ao monólogo vigiado

Foi exatamente essa lógica que levou os favoritos ao JN. Lula e Flávio Bolsonaro — os dois líderes que esvaziaram o debate da Band em 23 de agosto, deixando plataformas vazias — aceitaram, dias depois, o palco individual da Globo. No estúdio, a pauta é controlada e o tempo é generoso. A cola, nesse ambiente, deixa de ser piada para se tornar ferramenta.

Impacto e leitura histórica

A colinha, porém, revela mais do que preparação: expõe o nervosismo do palco nacional e a distância entre a espontaneidade que o telespectador espera e o cálculo que a campanha exige. Entre os veículos, o episódio virou pauta dupla — virou meme nas redes, mas também abriu a discussão sobre o que se esconde por trás de uma resposta ensaiada à mão.

Para a história da TV brasileira, o gesto de Flávio em 2026 é mais um capítulo da longa relação entre candidatos e o rito televisivo: o mesmo Jornal Nacional que em décadas passadas recebia presidentes com discurso decorado hoje recebe presidenciáveis com recados escritos na palma da mão.

Da bancada à palma da mão

Se nos anos 1980 e 1990 os presidenciáveis ensaiavam em frente ao espelho e usavam o teleprompter dos palanques, a era das mídias sociais reconfigurou o recurso. Hoje, a anotação manual retorna como resistência ao imprevisível — ou como prova, aos olhos do público, de que até o favorito se prepara com o que tem à mão.

O gesto que virou piada em uma noite, no dia seguinte, tornou-se material de análise sobre o que o Brasil espera — e o que tolera — de quem pede o voto na telinha.

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Por Portal Bonner — redação independente.