Como os debates presidenciais perderam a audiência na TV
Do embate Collor-Lula em 1989, que parou o país, aos 2 pontos de ibope: a queda do debate presidencial na TV brasileira até o esvaziamento de 2026.
De ato de massa a espetáculo esvaziado
Em 15 de novembro de 1989, o Brasil viveu a primeira eleição direta para presidente após a ditadura militar. Na reta final, Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva travaram o embate decisivo: o segundo turno foi resolvido em dois debates na TV, o último na Globo, que parou o país e registrou uma das maiores audiências já vistas em programação política.
Quase quatro décadas depois, em 23 de agosto de 2026, o cenário foi outro. O primeiro debate da campanha presidencial, transmitido pela Band, reuniu apenas três dos convidados e amargou 2 pontos de ibope na Grande São Paulo, conforme levantamento do Portal ADTV — uma queda de 84% em relação ao mesmo evento realizado pela emissora em 2022.
O auge do formato
Entre 1989 e 2002, o debate presidencial foi o evento de maior alcance da televisão brasileira. Em 1994, três encontros movimentaram a corrida vencida por Fernando Henrique Cardoso; em 2002, Lula e José Serra inauguraram o formato em arena, com os candidatos circulando pelo cenário.
Os anos de plenitude
Em 2010, Dilma Rousseff tratou os debates como estratégia central de campanha e participou de todos os encontros. Em 2014, repetiu a dose contra Aécio Neves em uma eleição acirrada. Em 2018, foram sete debates no primeiro turno, o primeiro na Band com mais de três horas de duração.
O esvaziamento gradual
O declínio começou antes de as audiências despencarem. Em 1998, nenhum debate ocorreu; em 2006, Lula, então candidato à reeleição, não compareceu aos três encontros do primeiro turno. A ausência dos favoritos, transformada em moeda de barganha, pavimentou o caminho para o fiasco atual.
O recorde negativo de 2026
No domingo 23 de agosto, apenas Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury subiram ao palco da Band, enquanto Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema ficaram de fora. Segundo levantamento da Folha de S.Paulo, foi o menor número de participantes em um debate inaugural desde a redemocratização.
Os presentes somavam apenas 11% das intenções de voto na primeira pesquisa Datafolha do período. No mesmo horário, a Record exibia uma entrevista de Lula, disputando a atenção do telespectador.
Legado de uma era
A trajetória revela um paradoxo: o formato que ajudou a consolidar a democracia brasileira perdeu força exatamente quando a audiência da TV se fragmentou. O debate continua existindo, mas deixou de ser o evento que unifica a atenção nacional. Como no esvaziamento do palanque, a TV aberta busca novas formas de reconquistar o público que um dia parou diante da telinha para decidir o destino do país.
Leia mais: De Tiririca a Augusto Cury: os candidatos que a TV criou
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Por Portal Bonner — redação independente.