De Tiririca a Augusto Cury: os candidatos que a TV criou
Da eleição recorde de Tiririca em 2010 ao escritor de autoajuda no palco da Band, a TV brasileira sempre ajudou a fabricar candidatos fora da política.
Um escritor no palco dos presidenciáveis
Neste domingo (23), a TV Bandeirantes recebe o primeiro debate presidencial de 2026. Entre os quatro nomes confirmados para o palco está Augusto Cury (Avante), psiquiatra e autor de best-sellers de autoajuda. A cena surpreende — e, ao mesmo tempo, é um capítulo antigo da televisão brasileira.
Desde os anos 1990, a TV construiu uma ponte constante entre a celebridade e o palanque. Figuras fora da política tradicional usaram a visibilidade da tela para virar candidato e, muitas vezes, vencedor.
O palhaço que encantou o país
O exemplo mais célebre é Tiririca. Humorista conhecido do grande público, ele se candidatou a deputado federal em 2010 pelo PR com o bordão "pior que tá não fica". A propaganda eleitoral virou fenômeno: virou meme, virou manchete, virou voto.
O resultado sacudiu a política. Tiririca foi o candidato mais votado da história naquela eleição, com mais de 1,3 milhão de votos, e se reelegeu nas disputas seguintes. O caso provou que a TV sabia muito bem transformar um rosto popular em capital eleitoral.
Os cantores e o atleta
Antes e depois de Tiririca, outros nomes da cultura usaram o mesmo caminho. O cantor Frank Aguiar elegeu-se deputado federal em 2006. O jogador Romário, ídolo da seleção brasileira, tornou-se senador em 2014.
A lógica era quase sempre a mesma: notoriedade na tela traduzida em reconhecimento nas urnas. O eleitor não escolhia, necessariamente, um programa de governo — escolhia uma figura que já conhecia e em quem depositava confiança pela familiaridade televisiva.
Cury e a autoajuda como plataforma
Augusto Cury atualiza esse padrão com outra moeda: o livro de autoajuda. O psiquiatra construiu uma carreira midiática em décadas de entrevistas, palestras e vendas milionárias de títulos como "Ansiedade" e "O Vendedor de Sonhos".
Ao entrar no debate presidencial, ele carrega essa audiência pré-moldada. Numa eleição em que Lula e Flávio Bolsonaro, líderes nas pesquisas, não comparecem, o palco vazio abre espaço para o escritor ocupar a cena e pautar o horário nobre.
O que esse ciclo revela
A trajetória de Tiririca a Cury mostra que a TV brasileira sempre foi uma máquina de fabricar celebridade política. O palanque se tornou mais um programa: com rosto, bordão, história e torcida.
Se nas décadas passadas quem dominou esse jogo foi o humor e o esporte, em 2026 é a autoajuda — a promessa de solução individual aplicada à vida pública — que ganha a tela. O debate deste domingo é o palco onde essa nova figura pode nascer.
Leia mais: A Band e a tradição do primeiro debate presidencial na TV
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Por Portal Bonner — redação independente.