Lula e o Jornal Nacional: três décadas de sabatinas
Da primeira campanha ao governo, Lula construiu com a bancada do JN uma relação de décadas. Em 2026, o favorito que fugiu do debate aceitou a sabatina individual.
A bancada que nem o presidente recusa
Nesta quinta-feira, Lula voltou ao estúdio do Jornal Nacional para uma das sabatinas mais esperadas da campanha de 2026. O gesto, aparentemente banal, carrega uma ironia: o mesmo presidente que deixou o púlpito vazio no debate da Band em 23 de agosto aceitou, dias depois, sentar-se diante de César Tralli e da bancada da Globo.
A cena resume uma relação de quase quatro décadas entre Lula e o telejornal mais assistido do país — uma história feita de embates, retratações e reencontros que ajuda a explicar por que o JN segue sendo a praça pública que nenhum favorito consegue recusar.
Do metalúrgico ao palácio
Nos anos 1980, o sindicalista que liderava greves no ABC paulista via o JN com desconfiança. A cobertura da redemocratização e das diretas já o colocava diante das câmeras, mas era a imprensa, em bloco, que ele apontava como adversária.
Foi a partir de 1989, com a primeira candidatura à Presidência, que a relação virou biográfica. A bancada passou a ser, ao lado dos comícios, o palco em que o ex-retirante se apresentava ao Brasil. Em 2002, na campanha da vitória, o tom mudou: o "medo" que alimentava peças publicitárias cedeu lugar a uma figura presidencial. Três anos depois veio o caso do "PowerPoint mentiroso" — acusações exibidas em apresentação que a própria Globo, anos mais tarde, reconheceu como inadequadas.
O reencontro de 2026
O episódio voltou à tona nesta quinta-feira, quando Lula disse "não ter esquecido" o PowerPoint e mencionou ter sido vítima da "maior mentira montada" do país. Tralli, na bancada, respondeu que a Globo se retratou. O presidente também falou do filho, comparou o caso a uma nova Lava Jato e defendeu que o herdeiro "terá de provar a inocência".
O rito que atravessa décadas
O que se viu na quinta é o desfecho de um rito consolidado: o presidenciável que evita o confronto coletivo ainda assim procura a entrevista individual. Do general-técnico que desponta na campanha ao escritor de autoajuda Augusto Cury, todos passam pela mesma cadeira no JN ao longo do ciclo eleitoral.
Em 2026, a série de sabatinas da Globo já ouviu Renan Santos, Caiado, Zema e Cury — cada um com seu momento, do manifesto à explosão em memes. Nesta sexta-feira, é a vez de Flávio Bolsonaro, o segundo colocado, enfrentar o que a imprensa chama de seu "primeiro grande teste ao vivo".
Legado de uma relação de poder
Mais do que um embate de infância da política, a sabatina de Lula no JN reafirma a tese que organiza a cobertura eleitoral brasileira: a bancada da Globo continua sendo o endereço de autoridade que nem o ocupante do Palácio do Planalto dispensa. É a prova de que, na disputa pela atenção fragmentada de 2026, o único palco que ainda reúne o país inteiro é o do telejornal das oito.
Leia mais: Quando o JN virou o palco dos presidenciáveis
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Por Portal Bonner — redação independente.