Duas globos: jornalismo bate recorde e dramaturgia patina
Enquanto o Globo Repórter bate recordes, a dramaturgia enfrenta crise de audiência. O contraste revela uma transformação no perfil do telespectador brasileiro.
Ao mesmo tempo em que o Globo Repórter celebra o quarto recorde consecutivo de audiência, a Globo recorre à reprise de "Avenida Brasil" para estancar a crise na faixa vespertina. O contraste é revelador: o jornalismo da emissora vende, mas a dramaturgia patina. O que isso diz sobre o telespectador brasileiro de 2026?
O jornalismo como ancora
Os números do Globo Repórter não são um acaso. Desde que William Bonner assumiu a apresentação, em fevereiro de 2026, o programa vem acumulando recordes semana após semana. O fator decisivo foi a mudança de horário: exibido depois da novela das nove, o GR se beneficia de um público já cativo e consolidado. A série "Conexão Marrocos", que documenta as sedes da Copa de 2030, é o tipo de conteúdo informativo que o brasileiro demonstra estar buscando.
O Jornal Nacional, com César Tralli e sua nova parceira na bancada, também vive um bom momento. O telejornal reassumiu o topo da audiência na Globo no primeiro semestre de 2026, corroborando uma tendência já observada em mercados maduros: em tempos de fragmentação digital, o telejornalismo tradicional se fortalece como porto seguro do telespectador.
A dramaturgia sob pressão
O caso de "Avenida Brasil" é emblemático. A novela foi um fenômeno em 2012 — seu último capítulo é um dos mais vistos da história da TV brasileira. Mas 14 anos depois, a reprise não encontra o mesmo eco. O público mudou, os hábitos de consumo migraram para o streaming, e a novela das seis perdeu relevância num ecossistema onde Netflix, Globoplay e YouTube disputam cada minuto de atenção.
A situação se agrava quando se olha para o cenário competitivo. O SBT, com Eliana em nova fase, tem conseguido se manter competitivo no horário vespertino. A Record investe em realities e novelas bíblicas. E a CazéTV, que durante a Copa de 2026 provou ser capaz de mobilizar 24 milhões de aparelhos simultâneos, deixou claro que a audiência jovem já não está na TV aberta — exceto quando o conteúdo é jornalismo de qualidade ou eventos ao vivo.
O que o contraste revela
Mais do que uma crise momentânea, o que se vê é uma reconfiguração do papel da TV aberta. O telespectador que continua ligado na televisão tradicional busca informação, credibilidade e acontecimentos ao vivo — não entretenimento gravado, que encontra em abundância nas plataformas digitais.
A Globo entendeu isso ao promover o Globo Repórter e ao investir em Bonner como apresentador de documentários. Mas ainda não resolveu o dilema da dramaturgia diária, que continua sendo seu custo mais alto e, cada vez mais, seu retorno mais incerto.
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O caso das "duas Globos" — uma que bate recorde no jornalismo e outra que relança novelas antigas para sobreviver — é o retrato de uma indústria que ainda não sabe como equilibrar tradição e transformação.
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Por Portal Bonner — redação independente.