A transição de 1996: quando o JN trocou apresentadores pela primeira vez
Em 1º de abril de 1996, Cid Moreira e Sérgio Chapelin deram lugar a William Bonner e Lillian Witte Fibe no Jornal Nacional. A mudança que encerrou 27 anos de locução e inaugurou a era dos âncoras jornalistas no Brasil.
No dia 1º de abril de 1996, o Jornal Nacional passou pela maior transformação de sua história — e não foi uma brincadeira de Dia da Mentira. Após 27 anos ininterruptos, a dupla formada por Cid Moreira e Sérgio Chapelin deixou a bancada do principal telejornal do país. Em seus lugares, entraram William Bonner e Lillian Witte Fibe. Mais do que uma troca de rostos, foi uma ruptura de perfil: aGlobo trocava locutores por jornalistas.
O fim de uma era: Cid e Chapelin
Cid Moreira apresentou o JN desde sua estreia, em 1º de setembro de 1969. Sua voz grave e impostação clássica se tornaram a marca registrada do telejornal por mais de duas décadas e meia. A seu lado, Sérgio Chapelin — que entrara em 1970 substituindo Hilton Gomes, o coapresentador original — formou a dupla mais longeva da história da televisão brasileira.
Entre 1969 e 1996, o Brasil mudou profundamente: passou pela ditadura militar, pela redemocratização, pelo impeachment de Fernando Collor e pelo Plano Real. Mas a bancada do JN permanecia a mesma. Cid e Chapelin eram locutores, não jornalistas — liam o texto redigido pela equipe de reportagem sem participar da edição ou da apuração das notícias.
No comando da direção de jornalismo, Evandro Carlos de Andrade decidiu que era hora de alinhar o JN ao padrão internacional dos grandes telejornais, onde âncoras jornalistas — que escrevem, editam e apresentam — eram a regra, não a exceção.
1º de abril de 1996: a nova bancada
A última edição de Cid Moreira e Sérgio Chapelin foi ao ar na sexta-feira, 29 de março de 1996. Cid encerrou com seu emblemático "Boa noite" — a mesma saudação que usara por 27 anos. Dois dias depois, na segunda-feira, Bonner e Witte Fibe estrearam. William Bonner, então com 32 anos, vinha do Jornal Hoje e era editor-chefe do JN desde 1994. Lillian Witte Fibe, uma das repórteres mais respeitadas da emissora, trazia experiência de grandes coberturas.
"A empresa queria trocar locutores por jornalistas na apresentação dos telejornais", explicou Evandro Carlos de Andrade na época. A mudança pegou o público de surpresa e gerou enorme repercussão.
A turbulência de 1998: a dança das cadeiras
A transição, no entanto, não foi suave. Lillian Witte Fibe ficou pouco menos de dois anos na bancada. Em fevereiro de 1998, após uma reunião com a cúpula da Globo, afastou-se em férias e foi transferida para o Jornal da Globo. Iniciou-se então um período de instabilidade: entre fevereiro e março de 1998, o JN teve quatro apresentadoras diferentes ao lado de Bonner: Sandra Annenberg, Mônica Waldvogel, Carlos Nascimento (que chegou a apresentar sozinho) e Ana Paula Padrão.
Em 30 de março de 1998, a Globo encontrou a solução definitiva: Fátima Bernardes assumiu a bancada ao lado de William Bonner — com quem era casada na época. A dupla Bonner-Fátima durou de 1998 a 2011 e consolidou o modelo de âncora jornalista que perdura até hoje.
O legado da transição
William Bonner tornou-se o apresentador mais longevo da história do JN, superando até Cid Moreira em tempo total como titular: foram 29 anos na bancada (1996-2025), contra 27 de Cid (1969-1996). Bonner também foi o primeiro a acumular as funções de editor-chefe e apresentador, um modelo que se tornou padrão no telejornalismo brasileiro.
Em 24 de abril de 2015, durante as comemorações dos 50 anos da TV Globo, Cid Moreira e Sérgio Chapelin tiveram um reencontro emocionante: apresentaram o último bloco do JN ao lado de William Bonner e Renata Vasconcellos. Foi um gesto simbólico de passagem de bastão entre duas gerações que definiram o telejornalismo brasileiro.
O impacto da troca de perfil
A substituição de locutores por jornalistas não foi apenas estética. Ela alterou a forma como o JN se relacionava com a notícia. Os âncoras passaram a participar das reuniões de pauta, a sugerir abordagens e a entrevistar autoridades ao vivo. O telejornal ganhou em profundidade e credibilidade, mas perdeu a dramaticidade vocal que marcava a era Cid Moreira.
Para o público, a mudança foi controversa. Muitos telespectadores sentiam falta da "voz do JN" — Cid Moreira era tão identificado com o telejornal que seu rosto e sua voz se confundiam com a própria notícia. Hoje, porém, é difícil imaginar o JN sem a figura do âncora que não apenas lê, mas interpreta e contextualiza os fatos.
O ano de 1996 marcou, assim, o fim da era dos locutores e o início do telejornalismo moderno no Brasil — uma transição que, 30 anos depois, continua sendo referência para estudantes e profissionais de comunicação.
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Por Portal Bonner — redação independente.